terça-feira, 30 de novembro de 2010

MINHA VIDA – ARTE-EDUCAÇÃO

Maria Teresa Vieira


(trecho do livro de memórias "Passagens" de Maria Teresa Vieira)

A ausência:
A presença na ausência alimenta. E quando nos damos por inteiro, a marca da ausência fica na presença. Eu tenho observado o seguinte em matéria de arte-educação: por que é que eu entrei nessa história?
O artista e o educador tem um compromisso e uma necessidade de orientar. Não somente o artista orientar, mas inclusive, ser orientado.
O educador era a necessidade, que eu sentia de completar as lacunas da infância. E o respeito de não ficar com as coisas só para mim.
É como se eu precisasse dar sempre ao outro através da arte. Eu acreditava realmente nisso. E até agora eu acredito que através da arte o homem pode se encontrar. É como se ele conhecendo o material, possa conhecer a si mesmo. Ele traçando a linha, está traçando a sua linha. E no continuar, ele vai resolvendo, dando soluções para suas coisas.
Eu sempre achei interessante dizer:
- Quando eu ficar bem, eu venho ter aula de pintura.
Mas justamente, eu achava que a pessoa iria ficar bem, tendo primeiro a aula de pintura, de teatro, de música. Aula para colocar sua criação em movimento, e organizar sua impetuosidade. Canalizando. Ter um ambiente onde propiciar-se o colocar para fora. Dentro desse ambiente iam surgindo situações. E dentro do surgir era como se o homem tivesse uma oferenda para dar à humanidade. Essa oferenda era materializada em atitudes. Quando a pessoa escolhe verbalizar essa oferenda, em forma de literatura, está sempre dando, está sempre militando.
Mas, há pessoas que fazem isso na atitude humana. O dar de cada dia. O viver constante. Organizar para dar à humanidade.
O artista dentro de sua arte, se organiza, O educador seria canalizar essa emoção, organizar essa emoção que cada um traz. Organizar o caótico. Estou me lembrando do meu amigo Willy.
É muito importante ver o caótico de cada um de nós. Ver surgir e depois organizar. Essa organização só vem da continuidade.
E se alguém vem sem saber como organizar as emoções, os gritos, os movimentos? O diretor deverá organizar os gritos. Organizar o caótico é tarefa do diretor, do educador, do professor, do estadista, da dona de casa, do presidente de uma organização.
As consequências do caótico, a continuação do mesmo, só darão dúvidas para o próprio caótico.
É como os altos e baixos de uma música: movimentos fortes e movimentos tranquilos, agudos e graves. Se não, haveria uma angústia muito grande, sem resultado.
É importante a educação do caótico e a presença do mesmo.
Este é o momento de dizer que educar é ajudar, é canalizar.
Mas, para educar, eu tive que me educar, o que não foi muito fácil dentro da educação desordenada de um nordestino. Tive que por em ordem as minhas gavetas desarrumadas. E até ser durona. Em alguns momentos até ser severa. Ser dura até comigo, e com os outros. Eu descobri que às vezes é necessário ser dura, para poder ser flexível em algumas horas. O dar não para dar sim. E ter conhecimento de alguns momentos do outro, de informação do outro, mas de maneira nenhuma ficar de antolhos, querendo aplicar os ensinamentos só de uns, sem ouvir o ensinamento do seu coração.
O educador não deve ser só educador. Ele tem que ser criador. Se ele não criar alguma coisa, ele não vai conseguir saber como passar adiante. Ele tem que resolver o ato da sua própria criação.
Tem o educador que é artista. E tem artista que é educador, e sente necessidade de passar para o outro, não somente a sua técnica, mas passar o sentimento da criação, em todos os minutos, não somente no trabalho que está sendo feito.
O professor deve ter um espírito aberto, e o aluno também, para saber quando vai existir outra aula, sem ser aquela que o aluno está assistindo. Mas, o professor tem que saber quando é que o aluno deverá ter outras informações com outro colega. Ele não deve ser vaidoso para reter o aluno um tempo maior do que o necessário.
O aluno sentirá que está sendo amado, respeitado, e poderá profissionalizar aquilo que está aprendendo, embora seja um trabalho quase como lazer, como um alegria.
Mas, e aquela sensação de carregar pedra, que entrou dentro da humanidade ?
Se não carregamos pedra, pensamos que a coisa não é séria. Dentro da formação que tivemos, a arte será muito forte, quase difícil e triste. É um conceito que temos que pensar e transformar.
Por que a arte não pode ser feliz, prazerosa e lúdica ? Por que a tristeza não pode estar conosco? Por que tem que ser só alegria? Por que lutar pela conquista não pode fazer parte do processo? A dor não faz parte do processo da vida?
E o aluno compreenderá que é uma coisa maravilhosa, a pesquisa constante, a procura, o brinquedo, o sério, o lúdico, o exigente, o suave.
É fundamental numa oficina propiciar ao aluno esses momentos de busca. Quem é que tem tempo de saber o que quer? Tem que ter um lugar onde a pessoa experimente. Faça experimentos, erre. Faça experimentos, erre.
(Maria Teresa Vieira /1996)